jesus

 

 

TRANSFORMAÇÃO EM DEUS

Tauler

“Ó alma, apressa-te a voltar para casa. Esqueçe tudo quanto viste e ouviste cá fora. Vais encontrar Deus lá dentro. Desocupa o lugar. Onde não mais estás, aí Deus está”.

Sta.Gema Galgani

Exclama num êxtase: “Ó Jesus eu te sinto. Sinto teu sangue correr pelas minhas veias. Como estou contente! Agora posso descansar junto ao teu coração. Agora, querendo encontrar-te, procuro-te no silêncio do meu coração. Oh! sinto-te em meu coração. Sinto-te tão vivo”.

Sta.Margarida Alacoque

“Eis a veste da inocência com a qual adorno tua alma, a fim de que vivas somente a vida de um homem-Deus. Pois sou eu tua vida e tu não viveras mais, senão em mim e por mim.”

 

Matilde de Helfta

“Pedi a Jesus uma lembrança perene. Jesus responde:“Dou-te meus olhos para que olhes tudo por eles.Dou-te meus ouvidos para que compreendas tudo que ouves. Dou-te minha boca para que faças passar por ela todas as tuas palavras, preces e cantos. Dou-te meu coração a fim de que penses por ele, e por ele me ames a mim, e todas as coisas por causa de mim.” E parecia-me ver com os olhos de Deus; ouvir com seus ouvidos; falar com sua boca. E parecia-me não ter outro coração, senão o de Deus”.

Droste -Vischering

Jesus: “Ponha-me no lugar de tua vontade; então quando trabalhas, eu trabalho por ti… para o futuro não terás mais vontade própria. A minha vontade será a tua. Quando trabalhas, eu trabalho por ti. Quando tomas repouso,eu descanso em ti. Eu vejo com teus olhos; trabalho com tuas mãos; falo com tua boca; oro por ti; e visto que meu maior desejo foi sofrer, sofrerei ainda em ti e por ti; contínuo assim minha paixão e aplico-a às almas, sofrendo na pessoa dos meus eleitos”.

Sta.Catarina de Sena

Bebera água com o pus de uma doente. Jesus recompensou-a, deixando que bebesse na chaga do seu coração. Em seguida, Jesus tirou-lhe o coração, e deixou-a alguns dias sem coração. Quando voltou: “Dou-te, agora,o meu em troca.” E uma cicatriz no peito ficou até a morte.

Catarina comenta: “Não pude mais dizer: recomendo-te meu coração ó Jesus.” Interpela o confessor, Pe.Raimundo: “Não estás vendo; não sou mais aquela que fui; estou mudada em outra pessoa, e se soubesses o que sinto.”

Uma “outra” transformação dera-se anos antes: Raimundo estava ainda duvidando das visões. Subitamente o rosto de Catarina se transforma no rosto de um homem, barbudo, olhando-o com severidade. “Quem está me olhando?” exclamou assustado. “Aquele que existe”.

Teresa d’Avila

Engenhosa é a palavra de Sta. Teresa comparando a alma com o bicho-da-seda. “Vive comendo, dia e noite sem parar, a folhagem verde. Depois, encasula-se e surge  a borboleta, a adejar de flor em flor, alimentando-se então apenas com o néctar das flores. Que contraste!”

“Ele começa a lavrar a seda e construir a casa onde há de morrer. Para nós, esta casa é Cristo. Parece-me ter lido que nossa vida está escondida em Cristo (Cl 3,3).

Que sua Majestade mesma seja nossa morada, e que nós fabriquemos (quer dizer: ele vai juntar nossos trabalhinhos com os grandes trabalhos que padeceu e fazer de tudo uma só coisa…) 

Demo-nos pressa em tecer esse casulinho. Morra,morra este verme…

Sai uma mariposinha branca, quão transformada!…

A mesma alma não se conhece mais. Que diferença entre um feio verme e uma branca mariposinha…

Nasceram-lhe asas, não se contenta mais ir passo a passo, pode voar. Tudo quanto faz por Deus, julga por ninharia. Não acha demais o que passaram os santos…

Tudo a cansa depois que experimentou que o verdadeiro descanso não vem das criaturas…

Que grandeza de Deus! Ainda há poucos anos, e quiçá há poucos dias, andava esta alma que não se lembrava senão de si. O Senhor a fez entrar na adega dos seus vinhos, e ordenou nela a caridade. O Senhor quer que saia dali marcada com o selo divino. Basta que a cera esteja mole, e é só ficar quieta e consentir. Ó bondade de Deus, que tudo há de ser a vossa custa. Só quereis nossa vontade, e não encontrar impedimento na cera.” (Morada5,2)

“Tudo quanto se pode entender, fica a alma, ou o seu espírito, feita uma coisa só com Deus…

Como duas velas de cera perfeitamente unidas dão uma só luz…

Vê-se claramente ser Deus quem dá a vida à alma.

Sente-o muito bem a alma e exclama: ó vida de minha vida e sustento que me sustentas.” (Morada 7,2)

Vivendo na presença da Santíssima. Trindade “estava espantada de ver tão grande Majestade em coisa tão baixa como minha alma, e ouvi: não és baixa, filha, pois és feita como minha imagem” (Relaciones (Bac), 11)

“Veio-me a idéia de uma esponja embebida e saturada de água: assim se me afigura minha alma repleta da divindade… Também entendi: “Não trabalhes para me teres a mim encerrado em ti, senão para te encerrares em mim” (Relaciones 18)

Gertrudes Maria

Jesus: “Não quero mais que te ocupes contigo. Quero que te esqueças, por completo. Deves ter um só pensamento:Deus e as almas. Deves ser como cera mole em minhas mãos. Não quero mais que procures consolação.

Nem que a desejes. Darei consolo quando bem me parecer.

Como na Eucaristia de pão e vinho só ficam as aparências,assim é preciso que em ti nada mais sobre do que é natural; que tudo seja divino.”

“É a presença de meu Filho que me atrai para ti.”

 “Nosso Senhor dilatou minha alma para poder passear dentro, à vontade. Minha alma, de repente, de pequenina tornou-se grande, larga. Vi-a como um espaço imenso no qual Nosso Senhor caminhava. Ele, o Infinito,parecia estar à vontade naquele canto estreito, pobre e escuro.”

Jesus: “Devemos ser como dois gêmeos tão parecidos que se julgue sempre ver a mim, ouvir falar a mim…

Quando tiver tristezas, tu as terás também. Quando tiver alegrias, tu as sentirás também.

Como prenda de nossa união (transformante) dou-te meu coração e minha cruz. Meu coração representa a união da tua alma com minha natureza divina, com o Verbo Eterno. Minha cruz representa a união de tua alma  com minha natureza humana, com o Verbo Encarnado.

Todos os meus bens são teus. Minha pessoa é tua.

Somos uma coisa só. Não temos mais que uma vontade.

Somos proprietários um do outro. Não temos mais que um coração para amar o Pai e o Espírito Santo. Um só coração para amar Maria. Um só coração para amar os anjos,os santos. Um só coração para amar as almas do purgatório.

Um só coração para amar as almas que estão sobre a terra e todas que ainda virão. Nós daremos a vida às almas.”

“A imensidade de Deus é aquele palácio vasto, do qual não se consegue sair. Viro-me para todos os lados, e encontro por toda parte Deus. Ele me envolve de todos os lados.

O Espírito Santo vai encher todos os vazios de tua vida.

O Espírito Santo vai fazer crescer Jesus em ti”.

MARIE DES VALLÉES

O processo de divinização foi ilustrado em Marie des Vallées (1590-1656) numa série de visões, através de figuras e símbolos significativos, que se destacam na hagiografia usual por sua originalidade digna dos Fioretti; notável também o bom humor de Jesus.

E tudo numa linguagem pitoresca, volta e meia linguagem santamente maliciosa, de subentendidos saborosos.

Espírito fino, pensadora original, esta mulher do povo.

“Águia” foi seu apelido popular.

Esse processo divinizante pertence à segunda metade de sua vida; levou anos, culminou na morte mística em 1649, mas só terminou em 1654, com a “morte” dos sentidos.

“Procurando-vos, Senhor, eu me perdi a mim”, queixa-se. Jesus responde. “Ora, e perdeu vantagens na troca,se eu estou em teu lugar?”

Outro dia, Maria não se achando bem, N. Senhor lhe diz: “Vou ajudar a te achar. Vamos ter com Sto. Agostinho.

Ele te mostrará o caminho. Escuta, ele diz: se amardes a terra, sereis terra; se amardes o céu, sereis céu, se amardes Deus…” Jesus não terminou, mas saiu rindo,dizendo: “Alô, te encontraste?”

Num excesso extático ela apostrofa os quatro elementos que (segundo a medicina da época) compõem o corpo humano.

“Retira-se, ó terra porque nós não queremos outra terra que a santa humanidade de Nosso Senhor. Retirate, ó água, só queremos as águas da sabedoria eterna. Retira-te ó ar, só queremos o doce zéfiro do Espírito Santo.Retira-se também, ó fogo, pois só queremos os fogos do Espírito Santo e do amor divino”.

Mas, antes de os quatro elementos da física desocuparem a área, já havia começado o êxodo de dentro. As faculdades mentais, narra ela, uma por uma caíram doentes, agonizaram e morreram.

“Primeiro o espírito, depois a memória, depois o intelecto.

Antes de ir embora vieram dizer adeus à vontade que é a sua rainha (e patroa) dizendo que iriam ver o Esposo.

Depois partiu também a vontade. E não os vi mais; nem sei onde estão”.

“Querendo lembrar-me de alguma coisa, é Nosso Senhor que responde: pois a memória se transformou nele”.

Essas parábolas e simbolismos lembram curiosamente Hb 4,12: o Verbo de Deus, mais cortantes que espada de dois gumes, penetra até a medula e divide alma e espírito. A teologia, ao interpretar, vai pensar Hb 4,12 como a misteriosa ação dos sete dons do Espírito Santo, os quais, a partir de certo grau de fervor, “suplantam” as virtudes e tomam a iniciativa na ação espiritual. Ultrapassando a razão, iluminada pela fé, as almas agem sob impulso superior.

“Foram para o Nada; é a casa deles”

“Os sentidos internos entraram também em agonia, por sete anos. Os sentidos externos também, por sua vez, foram para sua casa, e se perderam no mar infinito da divindade”. E no final, Jesus mesmo aponta Gl 2,20 (“não vivo mais…”), visto que São Paulo também sentiu em si essa dupla personalidade: a sua antiga, humana, embora só restassem dela sombras e contornos emaciados, e a nova realidade, o Cristo e sua presença.

Quando o espírito ia partir, Jesus perguntou-lhe se não queria dizer adeus. “Só faltava essa”, respondeu o espírito: “Meu adeus será: factus obediens usque ad mortem.

Aliás, só faço o que o Senhor já fez primeiro”.

“Teu espírito sou eu, lhe diz Jesus. Ou ele é minha veste. Pois estou revestido do teu espírito, que morreu,como de uma roupa que não tem sentimento. Teus sentidos também já estão mortos e os meus sentidos vestiramse com eles”.

Outra vez: “Eu sou tudo, e tu nada mais és que a roupa que uso. A roupa não tem nenhum movimento afora do que lhe dá a pessoa que a veste”.

Certa vez Jesus pergunta: “Se teu espírito voltasse,gostarias dele?” “Não”. “E por que não?” “Porque não consigo mais amá-lo.” E donde lhe vem isso? “Porque amo só a Deus”.

Mas certo dia o espírito voltou para uma visita rápida, e ela gostou dele. Jesus estranhou. “É que ele veio de todo mudado: tem voz tão agradável. Jesus interrompeu:

“Essa voz não é dele, é minha. E tudo o mais que ele tem, é meu. Teu espírito é somente meu revestimento externo.”

Festa de todos os Santos de 1649. Assistimos ao diálogo extático:

Jesus: “Quem és tu?”

Maria, “Não sei nada”.

Jesus: “Mas fala, fala”

— “Sou a mais miserável das criaturas”.

Jesus: “Não é bem assim…”

E houve uma reviravolta atrás dos bastidores e ei-la a gritar: “Verbum caro factum est”.

Jesus: “Dize-o em francês!”

Maria: O Verbo revestiu-se da minha carne e é ele que sofre nela.

Jesus insiste: “Dize a esses santos convidados da festa: Em que estado te achas?

— “Não sei”.

— Dize-o comigo. Eloi, Eloi lama sabactani (Meu Deus, por que me abandonaste?).

Eis o estado em que te encontras.

Tempos depois lhe diz Nosso Senhor: “As almas devem ser aniquiladas, a tal ponto que nada mais reste delas.

Tão pouco quanto resta do pão numa hóstia consagrada”.

Certo dia, Jesus perguntou: “O que minha esposa me dá de presente?” “Meu coração”. Reponde Jesus:

“Nem tens mais; pois é o meu. Tu te pareces a um camponês a dizer ao rei: Majestade, ofereço-lhe seu palácio”.

Maria guardou a lição. Outro dia, Jesus pergunta:

“Onde está teu coração?” “Não sei de nada; nem sei se tenho um”. Jesus: “Vou te mostrar”. E tira seu próprio coração do peito: “Eis o teu coração. É também da minha Mãe. É também o teu. Eu, minha Mãe e tu temos um só coração: é este”.

Uma parábola pós-evangélica, de Jesus: “Um camponês vende sua cabana a um rei, e este faz construir no lugar um castelo esplêndido. E o camponês procura em vão, sua antiga palhoça.

E dizem-lhe: ela virou castelo.

Certo dia, Jesus explica: “Os santos, estando todos deificados, não são senão amor divino, de modo que seu nome é amor divino, e não Pedro e Paulo. É este o nome que eu lhes dou.”

 Extraído do livro: TEOLOGIA DAS REALIDADES CELESTES, do Padre João Beting CSsR